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A abelha e o desejo humano: considerações sobre linguagem, sofrimento e flexibilidade psicológica

Foto do escritor: Eduardo R. Martins Torres
Eduardo R. Martins Torres
26 de set.
6 min de leitura

Observe uma abelha por alguns instantes. Ela pousa em uma flor, recolhe o pólen, retorna à colmeia e recomeça, sem pressa e sem drama. Ela não parece se perguntar se recolheu pólen suficiente, se está atrasada em relação às outras abelhas ou se aquele campo de flores diz alguma coisa sobre o seu valor. Ela simplesmente faz o que a vida de abelha pede.


Nós, ao contrário, raramente conseguimos ser tão diretos. Existe uma pergunta que costuma surgir de forma silenciosa na vida de muitas pessoas: por que é tão difícil simplesmente estar bem com aquilo que já se tem? Conquistamos algo que desejávamos e, pouco tempo depois, um novo objetivo ocupa o lugar da antiga falta. Quando a satisfação chega, parece não se instalar por completo.


Esse fenômeno não indica ausência de gratidão nem fragilidade de caráter. Ele se relaciona a uma característica bastante particular do funcionamento humano, e que a abelha não possui: a linguagem. Tanto a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) quanto a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) oferecem caminhos úteis para compreendê-lo.


Abelha em flores

O que a abelha não faz, mas nós fazemos.


A abelha vive o pólen como pólen. Nós vivemos o pólen, e ainda construímos uma longa história sobre o que aquele pólen significa para o nosso futuro, a nossa identidade e o nosso lugar no mundo. Fazemos isso o tempo inteiro, quase sempre sem perceber.


Um pensamento inicialmente simples, como “eu quero um carro”, tende a passar por uma escalada quase imperceptível:


  • “eu quero um carro”

  • "eu preciso de um carro”

  • “eu já deveria ter um carro”

  • “minha vida está atrasada porque ainda não tenho um carro”


O objeto em si não se modificou. O que se transformou foi a relação verbal que estabelecemos com ele. O carro moderno deixou de ser um desejo e passou a funcionar como uma condição para que determinada versão de nós mesmos possa, enfim, existir. A abelha jamais transformaria uma flor ausente em uma sentença sobre a própria vida. Nós fazemos isso com facilidade.


A mesma capacidade que nos permite planejar, aprender com o passado e projetar o futuro carrega um efeito colateral: prende-nos a regras, comparações e avaliações que raramente descansam. Não sofremos apenas com aquilo que está acontecendo, mas também com aquilo que julgamos que deveria estar acontecendo.


A leitura da Terapia Cognitivo-Comportamental.


Na TCC, um pensamento não é tratado como um fato objetivo, mas como uma interpretação, e as interpretações influenciam diretamente aquilo que sentimos e fazemos. Esse é o núcleo do modelo cognitivo proposto por Beck: entre o acontecimento e a reação existe uma leitura, muitas vezes automática, que atribuímos à situação. A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha justamente sobre essa leitura. Uma sequência ilustrativa:


Situação: ainda não tenho o carro.

Pensamento automático: “eu preciso disso agora”.

Crença associada: “todos estão avançando e eu estou ficando para trás”.

Emoção: ansiedade, frustração e sensação de inadequação.

Comportamento: comparação constante, urgência e sensação de fracasso.


Percebe-se que o problema raramente reside na ausência do carro em si, mas no significado atribuído a essa ausência. É esse significado que a TCC convida a examinar, por meio de um processo de reestruturação cognitiva, com perguntas simples e diretas:


  • Eu realmente preciso disso agora, ou trata-se de um desejo que estou convertendo em obrigação?

  • O que essa falta, de fato, diz a meu respeito?

  • Existe alguma evidência concreta de que minha vida esteja “atrasada”?

  • Que outras leituras dessa mesma situação seriam igualmente possíveis?


Questionar não significa convencer alguém de que seus desejos são inúteis. Significa desenvolver uma relação mais flexível com os próprios pensamentos.


Por que a abelha está protegida disso: a contribuição da ACT.


A ACT parte de uma perspectiva complementar. Em vez de discutir o conteúdo do pensamento para tentar modificá-lo, ela observa a relação que a pessoa mantém com esse pensamento. E, diferentemente de boa parte das abordagens, a ACT dispõe de uma teoria própria sobre o funcionamento da linguagem: a Teoria das Molduras Relacionais, ou RFT, na sigla em inglês. É essa teoria que explica, no fundo, por que a abelha está livre do sofrimento que nos alcança.


A ideia central da RFT é que a mente humana aprende a relacionar eventos de maneira simbólica. Não conectamos apenas aquilo que a experiência direta ensinou, como a abelha que associa uma cor de flor a mais néctar. Relacionamos eventos de forma arbitrária: uma palavra passa a evocar aquilo que representa, e as funções de um evento transferem-se para o outro. Por isso a simples palavra “provação” pode acelerar o coração de alguém sem que exista prova alguma diante dela. O pensamento transporta, para o presente, o peso daquilo que aponta. A abelha não faz esse transporte; nós, sim.


Essa mesma habilidade que possibilita planejar, comparar e resolver problemas é a que faz o sofrimento circular pela linguagem e comparecer em qualquer momento, inclusive nos agradáveis. Ao pensar “eu já deveria estar mais adiantado”, trazemos para o agora uma comparação com um futuro imaginado e reagimos a ela como se fosse concreta. A escalada do “eu quero” até o “minha vida está atrasada” é, precisamente, molduras relacionais se encadeando.


Quando passamos a tratar tais pensamentos como se fossem verdades literais, quase ordens, encontramo-nos naquilo que a ACT denomina fusão cognitiva. A frase “eu preciso de um apartamento” deixa de ser apenas um pensamento e adquire a força de uma regra a ser obedecida de imediato.


A ACT propõe um pequeno deslocamento, de efeito considerável na prática, chamado de desfusão: substituir “eu preciso de um apartamento” por “estou tendo o pensamento de que preciso de um apartamento”.


A mudança parece sutil, mas é significativa. Ao nomear o pensamento como pensamento, enfraquece-se aquela transferência automática de funções descrita pela RFT, e o conteúdo perde parte de sua força de comando. Não é necessário discutir com ele, provar que está equivocado ou obedecer-lhe automaticamente. É possível apenas reconhecê-lo e, a partir daí, formular a pergunta que realmente importa: diante desse pensamento, que ação faz sentido para mim agora, considerando o tipo de pessoa que desejo ser?


Aceitação não é resignação.


Surge aqui uma das dúvidas mais frequentes: qual a diferença entre aceitar e simplesmente se acomodar?


Aceitar não significa abandonar objetivos, tampouco permanecer passivamente em uma situação desconfortável. A diferença está na relação com o processo. No comodismo, abandonam-se ações importantes porque mudar parece difícil demais. Na aceitação, reconhecemos a realidade como ela se apresenta, sem despender energia lutando contra o fato de que ela é assim, e escolhemos agir de acordo com aquilo que realmente importa, o que a ACT descreve como ação comprometida orientada por valores.


Há uma diferença relevante entre pensar “desejo muito ter meu apartamento; ainda não tenho condições, mas posso começar a construir esse projeto sem tornar minha vida atual insuportável” e pensar “só poderei ser feliz quando tiver meu apartamento”. No primeiro caso, existe um objetivo. No segundo, existe uma condição imposta para que a própria vida seja autorizada a acontecer.


Desejar sem ficar aprisionado ao desejo.


Uma vida psicologicamente saudável provavelmente não é aquela em que deixamos de desejar, mas aquela em que conseguimos desejar sem permanecer presos ao próprio desejo, aquilo que a ACT chama de flexibilidade psicológica.


É plenamente possível fazer planos, poupar recursos, buscar uma carreira melhor, mudar de casa ou adquirir um bem e, ao mesmo tempo, reconhecer que nenhuma dessas conquistas precisa carregar sozinha a responsabilidade por nossa satisfação. Enquanto permanecemos atentos ao que falta, corremos o risco de deixar de perceber o que já existe. Enquanto construímos a próxima versão de nós mesmos, podemos deixar de viver a versão que já está presente.


O que a abelha tem a nos ensinar?


Não precisamos, nem poderíamos viver como a abelha. Temos linguagem, memória, imaginação e a capacidade de transformar o mundo, e é justamente isso que nos torna humanos. Mas talvez possamos aprender algo com ela. Não sobre viver sem desejos, e sim sobre não transformar cada desejo em uma exigência, nem converter a ausência daquilo que queremos em uma sentença sobre o nosso valor.


A abelha nunca adia a própria vida à espera de uma flor melhor. Nós, com toda a nossa linguagem, corremos esse risco a cada pensamento. No espaço entre desejar e precisar, entre aceitar e desistir, entre projetar o futuro e viver o presente, existe uma possibilidade concreta e clinicamente relevante: seguir caminhando sem transformar o caminho em sofrimento.


Referências

RANGÉ, Bernard (org.). Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.

BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

PEREZ, William F.; KOVAC, Roberta; ALMEIDA, João H. de; DE ROSE, Julio C. (orgs.). Teoria das molduras relacionais (RFT): conceitos, pesquisa e aplicações. São Paulo: Núcleo Paradigma, 2021.

DE MORAES, Gabriel J.; ASSAZ, Débora A.; OSHIRO, Claudia K. B. Teoria das Molduras Relacionais (RFT): apresentação para analistas do comportamento. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 25, n. 1, e231745, 2023.

HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed, 2021.

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